Eleição acirra debate sobre impacto do voto evangélico
"Igreja evangélica no Rio de Janeiro"
Em 2011, bancada evangélica na Câmara passará de 43 a 63 cadeiras
As
eleições para presidente chamaram atenção para o peso do voto
evangélico no Brasil, mas os fatores que influenciam a decisão dessa
faixa de eleitores e a coesão do movimento como força eleitoral
despertam opiniões divergentes.
Para o sociólogo Paul Freston, que
estuda o papel dos evangélicos na política desde os anos 1980, não
existe um voto evangélico coeso. Uma coisa, diz ele, é o discurso de
líderes evangélicos. Outra é examinar a maneira de o evangélico comum
votar.
"Não é um voto de cabresto. Mesmo quando o pastor é
candidato e toda a igreja é mobilizada para votar nele, há casos de
derrota fragorosa. Os membros parecem estar obedientes, mas não estão",
diz ele à BBC Brasil.
"Estamos falando de pessoas que são cidadãos
comuns, têm sua inserção na sociedade. Elas levam em consideração
fatores pessoais, profissionais, de família, de classes", enumera
Freston, professor da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo, e
da Balsillie School of International Affairs, no Canadá.
Na
opinião do sociólogo Alexandre Brasil Fonseca, se há coesão, ela vem não
do fato de serem eleitores evangélicos, mas sim dos outros elementos
que definem a identidade dos grupos - como origem social e capital
cultural.
"O espectro evangélico é amplo e inclui diversas
tendências e opiniões", diz Fonseca, diretor do Núcleo de Tecnologia
Educacional para a Saúde (Nutes), da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. "O fato de os fiéis estarem numa igreja e falarem 'amém' para
um pastor não deve ser visto como uma adesão integral."
Pastores
De
acordo com levantamento do cientista político Antonio Lavareda, o
segmento evangélico representa 25% do eleitorado brasileiro - cerca de
34 milhões de pessoas. E, na avaliação do pesquisador, a influência dos
líderes religiosos sobre os fiéis é maior no caso dos evangélicos.
"Pesquisas
têm apontado que o contingente evangélico tem maior capacidade de ser
influenciado pelos seus bispos e pastores do que o contingente dos
católicos", diz Lavareda.
"Temos 62% do eleitorado se dizendo
católico, mas padres e bispos da igreja estão longe de terem a
influência que os pastores evangélicos têm", compara o cientista
político, que é especialista no estudo de processos eleitorais e foi
consultor de comunicação nas candidaturas presidenciais de Fernando
Henrique Cardoso.
Lavareda diz que a sociedade brasileira é
eminentemente religiosa e que o circuito das igrejas sempre foi um
instrumento fundamental nas agendas de campanhas.
"Todos os
candidatos precisam interagir com as igrejas, frequentar os templos, ser
apresentados por padres e pastores aos eleitores. É um ingrediente
típico na disputa", afirma.
Na disputa presidencial deste ano, a
aproximação com lideranças evangélicas foi uma das apostas das campanhas
de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), que procuraram participar
de missas e cultos e tentaram se identificar como políticos que
valorizam a fé.
Ambas as campanhas contam com uma coordenadoria
evangélica para dialogar com pastores e buscar apoio em diferentes
igrejas. E temas como o aborto e o casamento homossexual se tornaram
pontos sensíveis da campanha, com o segundo turno marcado por cobranças
por um posicionamento claro sobre esses assuntos.
Debate moral
Na
avaliação do diretor do Nutes, o posicionamento em relação a temas
sensíveis pode ser decisivo para parte dos evangélicos. "Para este
eleitorado, a questão moral tem significativo peso e centralidade na
definição do voto."
Já Paul Freston diz que, no Brasil, os
eleitores não costumavam decidir o voto com base em uma única questão,
ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos - onde é comum o chamado
"single issue vote" (voto baseado em uma questão central).
"No
Brasil, historicamente, os evangélicos não votam assim, outras questões
têm uma importância maior. Ainda é cedo para afirmar, mas isso pode
estar mudando", avalia o sociólogo.
A expansão da esfera de
influência do eleitorado evangélico do Legislativo para o Executivo é
outro fenômeno recente apontado por pesquisadores. Os evangélicos já têm
três décadas de tradição em eleger representantes para o Poder
Legislativo.
"Influenciar uma disputa presidencial é mais
difícil", diz Freston. "Afinal, apesar de serem um grupo grande, os
evangélicos são uma minoria."
"Neste ano, tivemos o caso da Marina
Silva, a evangélica que chegou mais perto da Presidência até hoje, com
quase 20% dos votos", acrescenta o sociólogo. "O fato de ela ser
evangélica teve impacto neste resultado. E ela foi discreta, não fez o
mesmo uso eleitoral da identidade evangélica que o Garotinho fez em
2002."
Garotinho
Os sinais de influência do voto evangélico
em uma disputa presidencial já haviam aparecido em 2002, quando boa
parte da votação para a candidatura do ex-governador do Rio Anthony
Garotinho (na época, do PSB, e hoje no PR) foi atribuída ao apoio de
fiéis evangélicos.
"Garotinho já tinha uma base regional muito
forte no Rio e usou sua identidade evangélica para se lançar
nacionalmente. E se saiu bem. Ficou em terceiro lugar e quase chegou ao
segundo turno", lembra Freston, referindo-se às eleições em que Luiz
Inácio Lula da Silva foi eleito presidente.
Segundo o cientista
político Antonio Lavareda, uma pesquisa realizada dias antes do primeiro
turno em 2002 indicou que o resultado do pleito poderia ter sido outro
se os evangélicos fossem a maioria.
"Garotinho tinha 42% da
intenção de votos no segmento, o que o colocaria 15 pontos à frente de
Lula, que tinha 27% dos votos do grupo", cita o pesquisador.
Nas
eleições do último dia 3 de outubro, Garotinho foi eleito deputado
federal com quase 700 mil votos no Rio, a segunda maior votação para o
cargo em todo o Brasil.
Outros candidatos evangélicos tiveram
votações expressivas no país. A partir de 2011, o número de evangélicos
na Câmara dos Deputados passará de 43 para 63, segundo levantamento do
Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar.
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Atualizado: 28/10/2010 5:36
OPINIÃO:
1. INFELEZMENTE ESTAMOS BATENDO "CABEÇAS" NO QUESITO PARTICIPAÇÃO POLÍTICA DE RESULTADO, MESMO ASSIM SOMOS RESPEITADOS, IMAGINE, NOSSO VOTO COESO: a) somos desorganizados e super desunidos, b) não temos bandeiras de lutas(exceto as de natureza moral), c) não falamos uma só lingua, d) não temos formadores de opinão que pense no coletivo, e) não temos estratégias organizacional em torno de interesses afins como segmento social, f) não temos um projeto de nação no campo político, pensamos nisso!
ALMENARA-MG, 28 DE OUTUBRO DE 2010







